Fermento natural sem Glúten Parte II
Optei por retornar o tema dos fermentos naturais sem glúten após constatar o interesse expressivo gerado pela publicação anterior. A fermentação natural, sobretudo para quem está iniciando, costuma apresentar desafios que nem sempre são evidentes à primeira vista.
O manejo adequado das leveduras selvagens e BAL exige compreensão de alguns fatores fundamentais. Por isso, quem deseja trabalhar com esse tipo de cultura precisa desenvolver, antes de tudo, duas virtudes indispensáveis: paciência e perseverança. Sem esses requisitos, o processo tende á resultar mais em frustação do que em aprendizado.
Isso não significa que a panificação deva ser encarada como um território intransponível. A fermentação biológica convencional - com métodos como poolish, biga ou esponja - produz pães de excelente qualidade e é consideravelmente mais acessível. O fermento biológico comercial também é composto por organismos vivos; entretanto, as leveduras utilizadas, principalmente Saccharomyces cerevisiae, são selecionadas e padronizadas em laboratório para oferecer desempenho rápido, previsível e estável.
O foco deste texto, contudo, é o fermento natural sem glúten. Para sua elaboração, pode-se utilizar qualquer farinha isenta de glúten combinada a um meio líquido. Esse líquido, como no fermento natural tradicional, não precisa ser exclusivamente água: leite, sucos de frutas, iogurte ou kefir também podem servir como base. O objetivo central é desenvolver uma cultura espontânea capaz de abrigar leveduras e bactérias que conferirão ao pão sem glúten características superiores - miolo mais elástico e mastigável, sabor complexo e maior vida útil do produto final.
Antes de iniciar a produção de um fermento sem glúten e, posteriormente, utilizá-lo em pães, algumas orientações são fundamentais que também são válidas para qualquer outro fermento tradicional:
1 - Vitalidade do fermento
A cultura precisa estar em pleno vigor para ser incorporada à massa. Recomenda-se realizar diversas alimentações (atualizações) prévias até que o fermento apresente crescimento consistente, podendo dobrar ou triplicar de volume, com aroma agradável semelhante ao iogurte ou kefir, por vezes com notas levemente frutadas.
2 - Reativação de fermentos refrigerados
Quando o fermento é mantido sob refrigeração, o ideal é submetê-lo, no dia anterior ao preparo do pão, a uma alimentação em três estágios (saiba mais). Esse procedimento restabelece o equilíbrio microbiano e garante maior regularidade fermentativa, evitando resultados instáveis após as atualizações.
3 - Qualidade da água
A água exerce papel determinante em qualquer tipo de fermentação. O saudoso padeiro francês Lionel Poilâne afirmava preocupar-se mais com a qualidade da água do que com a própria farinha. A presença de cloro na água da torneira inibe severamente a atividade microbiana, sobretudo em massas fermentadas sem glúten. Recomenda-se utilizar água potável sem cloro, preferencialmente deixada em repouso por algumas horas para que o cloro evapore. Para a criação de um novo fermento, a água deve estar morna, entre 28ºC e 30ºC.
4 - Controle da temperatura
O ambiente influencia diretamente o desenvolvimento da cultura. Muitos iniciantes orientam-se apenas pela temperatura do local, o que pode induzir a um erro severo: se o ambiente está a 24ºC, o fermento provavelmente estará alguns graus abaixo disso, resultando em atividade lenta ou até mesmo inexistente. Para fermentos sem glúten, a faixa ideal situa-se em torno de 30ºC, condição que favorece o equilíbrio microbiológico.
5 - Manutenção e armazenamento
Embora algumas referências mencionem longos períodos de conservação sob refrigeração, o fermento natural foi concebido para permanecer ativo diariamente. No caso das culturas sem glúten, após uma semana refrigerada começam a surgir desequilíbrios significativos.
O período recomendado não deve ultrapassar quatro dias. Para armazenamento prolongados, a alternativa mais segura é a desidratação: alimentar o fermento, aguardar cerca de uma hora, espalhá-lo em finas camadas com um pincel culinário sobre papel manteiga e, após seco, quebrá-lo e guardá-lo em recipiente de vidro hermético. A cada três meses, convém reativá-lo com o método de três estágios e repetir o processo.
Em resultados laboratoriais, foi desenvolvida uma cultura sem glúten a partir de trigo sarraceno, farinha de amaranto e purê de frutas. As leveduras naturalmente presentes nas frutas, aliadas aos açúcares que servem de substrato energético, criaram condições ideais para a multiplicação dos microrganismos. Com a adição das farinhas, o processo evoluiu de forma consistente, resultando em um fermento de elevada atividade e com equilíbrio de acidez adequado para panificação.
Formulação de Cultura Inicial para Fermento Natural sem Glúten
Extrato Fermentativo de Frutas - Fundamentação Microbiológica
Ingredientes
100 gramas de água potável
Saccharomyces cerevisiae
- Carga microbiana inicial
- Teor de açúcares disponíveis
- Temperatura de incubação
- Disponibilidade de oxigênio
- Pressão osmótica do meio

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